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segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O Teu Riso - Pablo Neruda



Tira-me o pão, se quiseres, 

tira-me o ar, mas 
não me tires o teu riso. 

Não me tires a rosa, 
a flor de espiga que desfias, 
a água que de súbito 
jorra na tua alegria, 
a repentina onda 
de prata que em ti nasce. 

A minha luta é dura e regresso 
por vezes com os olhos 
cansados de terem visto 
a terra que não muda, 
mas quando o teu riso entra 
sobe ao céu à minha procura 
e abre-me todas 
as portas da vida. 

Meu amor, na hora 
mais obscura desfia 
o teu riso, e se de súbito 
vires que o meu sangue mancha 
as pedras da rua, 
ri, porque o teu riso será para as minhas mãos 
como uma espada fresca. 

Perto do mar no outono, 
o teu riso deve erguer 
a sua cascata de espuma, 
e na primavera, amor, 
quero o teu riso como 
a flor que eu esperava, 
a flor azul, a rosa 
da minha pátria sonora. 

Ri-te da noite, 
do dia, da lua, 
ri-te das ruas 
curvas da ilha, 
ri-te deste rapaz 
desajeitado que te ama, 
mas quando abro 
os olhos e os fecho, 
quando os meus passos se forem, 
quando os meus passos voltarem, 
nega-me o pão, o ar, 
a luz, a primavera, 
mas o teu riso nunca 
porque sem ele morreria. 




Pablo Neruda

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Soneto do Corifeu (da peça Orfeu da Conceição)

São demais os perigos desta vida

Pra quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua chega de repente
E se deixa no céu, como esquecida

E se ao luar que atua desvairado

Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher

Deve andar perto uma mulher que é feita

De música, luar e sentimento
E que a vida não quer de tão perfeita

Uma mulher que é como a própria lua:

Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua


- Vinícius de Moraes
(O poema foi musicado por Toquinho, e ganhou o título “São demais os perigos desta vida”, que deu nome ao disco homônimo (1972) da dupla Vinicius e Toquinho) <3


quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Metade - Oswaldo Montenegro

Que a força do medo que tenho
 Não me impeça de ver o que anseio
 Que a morte de tudo em que acredito
 Não me tape os ouvidos e a boca
 Porque metade de mim é o que eu grito
 A outra metade é silêncio
Que a música que ouço ao longe
 Seja linda ainda que tristeza
 Que a mulher que amo seja pra sempre amada
 Mesmo que distante
 Pois metade de mim é partida
 A outra metade é saudade
Que as palavras que falo
 Não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
 Apenas respeitadas como a única coisa
 Que resta a um homem inundado de sentimentos
 Pois metade de mim é o que ouço
 A outra metade é o que calo
Que a minha vontade de ir embora
 Se transforme na calma e na paz que mereço
 Que a tensão que me corrói por dentro
 Seja um dia recompensada
 Porque metade de mim é o que penso
 A outra metade um vulcão
Que o medo da solidão se afaste
 E o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
 Que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso
 Que me lembro ter dado na infância
 Pois metade de mim é a lembrança do que fui
 A outra metade não sei
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
 Pra me fazer aquietar o espírito
 E que o seu silêncio me fale cada vez mais
 Pois metade de mim é abrigo
 A outra metade é cansaço
Que a arte me aponte uma resposta
 Mesmo que ela mesma não saiba
 E que ninguém a tente complicar
 Pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
 Pois metade de mim é plateia
 A outra metade é canção
 Que a minha loucura seja perdoada
 Pois metade de mim é amor
 E a outra metade também


sábado, 9 de janeiro de 2016

Precisa-se - Clarice Lispector


Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.




quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Eu Sou o que Ninguém vê - Clarice Lispector


Sou os brinquedos que brinquei, as gírias que usei, os nervosos e felicidades que já passei. Sou minha praia preferida, Garopaba, Maresias, Ipanema, sou os amores que vivi, as conversas sérias que tive com meu pai: Eu sou o que me faz lembrar!

Sou a saudade que sinto, sou um sonho desfeito ao acaso, sou a infância que vivi, sou a dor de não ter dado certo, sou o sorriso por tudo que conquistei, sou a emoção de um trecho de livro, da cena de filme que me arrancou lágrimas: Eu sou o que me faz chorar!

Sou a raiva de não ter alcançado, sou a impotência diante das injustiças que não posso mudar, sou o desprezo pelo que os outros mentem, sou o desapontamento com o governo, o ódio que isso tudo dá. Sou o que eu remo, sou o que eu não desisto, sou o que eu luto, sou a indignação com o lixo jogado do carro, a ardência da revolta ao ver um animal abandonado: Eu sou o que me corrói!

Eu sou o que eu luto, o que consigo gerar através de minhas verdades, sou os direitos que tenho e os deveres a que me obrigo, sou a estrada por onde corro, sou o que ensino e, sobretudo, o que aprendo: Eu sou o que eu pleiteio!

Eu não sou da forma como me visto, não sou da forma como me comporto, não sou o que eu como, muito menos o que eu bebo. Não sou o que aparento ser: Eu sou o que ninguém vê!